“Estamos do lado certo da história” — Hades
Hades é um voluntário colombiano que apoiou a Ucrânia desde os primeiros dias da invasão em grande escala da Rússia. Em 2022, ele pegou em armas nos campos em chamas da região de Kharkiv — em Petropavlivka, perto de Kupyansk. Seu apelido remonta ao antigo senhor do submundo. Para seus irmãos de armas, esse nome é um lembrete: cada dia no campo de batalha é uma caminhada entre a vida e a morte. Mas para o inimigo, é um aviso: do reino governado por Hades, poucos voltam vivos.
Guerreiro por natureza
Hades é soldado há quase vinte anos. Sua trajetória começou no exército colombiano e depois o levou à Legião Estrangeira Francesa, onde serviu por quase quatro anos. Depois disso, o combatente trabalhou com empresas militares privadas na África e no Oriente Médio — no Senegal, Chade, Congo, Djibuti e Somália. Quando a Rússia atacou a Ucrânia, Hades já havia trocado o quartel por um teto civil, mas não podia permanecer indiferente diante da injustiça:
“Eu morava na Alemanha e na Suíça, trabalhando e construindo minha vida lá. Mas em 2022, meu antigo comandante me ligou e pediu para eu me juntar a uma unidade de forças especiais na Ucrânia. Decidi vir, porque os russos são invasores. Nenhuma nação na Terra tem o direito de roubar a liberdade de outra. Eu luto contra isso.”
Poliglota de rifles
Durante sua extensa carreira militar, Hades tornou-se proficiente com um vasto arsenal de rifles de infantaria.
Essa ampla experiência se mostrou inestimável na Ucrânia, onde o campo de batalha exige constantemente versatilidade: “Quando servi no exército colombiano, minha arma principal era a Galil — um rifle de fabricação israelense, bastante semelhante ao AK. Mais tarde, na Legião Estrangeira Francesa, me especializei como atirador de elite. Durante as missões na África e no Oriente Médio, trabalhei com os rifles alemães Heckler&Koch.
Quando cheguei à Ucrânia em 2022, comecei novamente com o AK, depois mudei para o CZ BREN e agora carrego um mini AK — AKS-74U.”
Embora Hades pudesse facilmente manusear rifles de assalto mais novos, ele ainda prefere a plataforma AK. Uma razão fundamental por trás de sua escolha é o fato de que as posições inimigas capturadas frequentemente rendem Kalashnikovs abandonados:
“Com o tempo, colecionei muitos troféus do inimigo na linha de frente — principalmente seus AKs. Pode ser uma arma antiga, mas está longe de ser obsoleta. É claro que rifles como o CZ BREN ou o M4 são mais modernos. Mas o AK tem sua própria força: funciona em qualquer lugar — na areia e na água — quando tudo o mais pode falhar.”
Na cara da guerra
O trabalho de Hades é quase inteiramente de infantaria. Lá, em meio à lama, escombros e árvores destruídas, ele enfrenta o inimigo diretamente, confrontando a face brutal do combate sem escudos de distância ou máquinas:
“A missão é sempre a mesma e simples: destruir o inimigo. E como conseguimos isso? Matando-os. Não há outra maneira.”
No entanto, cada triunfo acarreta um risco. É por isso que cada missão bem-sucedida merece reconhecimento:
“Aqui na Ucrânia, recebi muitas medalhas, porque servi em alguns dos locais mais perigosos. Por exemplo, no ano passado, estive em Staromayorske, na região de Donetsk. Mantive minha posição lá por 21 dias. Quase perdi a vida e passei quase seis meses no hospital me recuperando.”
Unidos em um propósito, forjados em habilidade
Hades acredita que é o propósito que diferencia a Legião Internacional do inimigo. Todas as pessoas que se juntam à Legião e lutam ao lado dos ucranianos sabem exatamente porque estão aqui:
“Lutamos pela liberdade da Ucrânia. É essa ideia em nossas mentes que nos dá força. O inimigo não tem nada pelo que lutar. Muitos deles vêm para a linha zero como se pedissem para ser mortos, porque não querem voltar para casa.”
Ainda assim, os voluntários precisam trazer mais do que coragem para derrotar o inimigo. Para lutar ao lado de guerreiros como Hades, eles precisam dominar um conjunto específico de habilidades:
“99% das pessoas que se juntaram ao Primeiro Batalhão vieram de outros países. Nesses países, muitos deles serviram nas forças armadas, muitas vezes em unidades especiais. Todos nós somos bem treinados, quase como uma unidade de forças especiais.
O inimigo, por outro lado, quer vencer esta guerra com quantidade, não com qualidade. Eles simplesmente continuam enviando pessoas para a frente — onda após onda para a linha zero. Por que eles vêm aqui para morrer? Porque não são soldados, apenas pessoas tolas enviadas por seus comandantes para a morte.”
Condicionamento físico, consciência tática, proficiência com armas e capacidade de manter a calma sob pressão são apenas o começo. Hades tem certeza de que também é preciso algo mais:
“O instinto de sobrevivência é a coisa mais importante que uma pessoa tem. Muitos dos que vieram para cá não são soldados profissionais — são homens comuns que simplesmente querem lutar contra os invasores. Mas o que os mantém vivos é o instinto.”
Encontrando um novo lar
Hades conheceu muitos países ao longo de sua vida, experimentando diferentes culturas e modos de vida. No entanto, ele fez uma escolha deliberada de chamar a Ucrânia de seu lar:
“Estou lutando pela Ucrânia porque agora minha família está aqui: minha esposa é ucraniana. Quero ter filhos, criá-los neste país e ficar aqui pelo resto da minha vida.”
O legionário se apaixonou pela Ucrânia — e ele sabe que o amor vem acompanhado da compreensão. Por isso, ele continua explorando o país para sentir seu pulso em primeira mão:
“Viajei por quase todo o país. Sempre que tenho a chance, pego um trem ou um ônibus para explorar cidades como Odessa, Lviv, Kiev e Kharkiv. A região de Donetsk é maravilhosa, o que torna ainda mais trágico o fato de agora estar invadida por todos esses orcs.”
Hades ainda acha a Ucrânia notavelmente semelhante à sua Colômbia natal. Talvez sejam essas características em comum que lhe dão um senso de pertencimento, apesar de estar longe de sua terra natal:
“A natureza é tão deslumbrante quanto na Colômbia. A comida é outra semelhança. Quando vim para a Ucrânia pela primeira vez, fiquei impressionado com o quanto os ucranianos apreciam sua culinária. Muito parecido com o que fazemos na Colômbia. A Ucrânia também é uma nação cristã especial, onde a família é acima de tudo. Na Colômbia, é a mesma coisa: a família vem em primeiro lugar.”
A língua é a ponte para um novo país e sua cultura. Hades sabe disso e se dedica a aprender ucraniano:
“A língua ucraniana é muito bonita. Minha esposa quer que eu fale ucraniano em casa. Então, eu pergunto a ela em ucraniano: ‘Quero café da manhã, quero almoço, quero jantar. Vamos ao mercado, vamos ao centro, vamos ao mercado’”.
Pensamentos sóbrios, mãos firmes
Hades tem uma mensagem clara para aqueles que estão prontos para dar um passo à frente: o sucesso aqui não se resume apenas ao heroísmo — trata-se de preparação, resistência e saber por que você luta:
“É difícil. Todos sabem que, em qualquer missão, podem morrer. Esta é uma guerra longa. O inimigo pensou que seria uma operação especial de quatro dias para capturar Kiev. Agora, tornou-se uma luta de quatro anos.”
Mesmo homens de aço precisam de um momento para respirar. Hades sabe como é exaustivo suportar uma guerra de intensidade tão implacável. No entanto, apesar das dificuldades, ele exorta a não desistir:
“Muitas pessoas ficam cansadas. Mesmo aqueles de nós que lutam pela liberdade aqui na Ucrânia se sentem exaustos e querem ir embora. Mas eu sempre encorajo as pessoas a voltarem, porque estamos do lado certo da história. Então, eventualmente, elas voltam. Porque sabem que a linha de frente é implacável e que nosso dever ainda não terminou.”
Texto: Dmytro Tolkachov
Fotos e vídeo: Volodymyr Patola
Edição de vídeo: Oleksandr Los