Khan: “Os russos são como bárbaros. Esse tipo de violência não tem lugar no nosso mundo”
Voluntário francês que luta pela Ucrânia desde janeiro de 2023, Khan comanda um grupo especial de reconhecimento que opera nas frentes mais ativas do país. Fluente no uso de uma ampla variedade de armas e experiente em funções de assalto e apoio, ele participou de batalhas importantes nas regiões de Kharkiv, Donetsk e Zaporizhia. Sua trajetória moldou um soldado que fala sobre a guerra não em abstrações, mas em lições aprendidas com muito esforço.
Tendo escolhido a carreira militar, Khan é sincero sobre o que inicialmente o motivou a se juntar à luta da Ucrânia contra a agressão russa:
“Na França, existe uma percepção comum de que os russos são adversários fortes e formidáveis. No início, fui motivado pela curiosidade — queria ver por mim mesmo, lutar contra eles, ganhar minha própria experiência.”
No entanto, o que começou como um desafio profissional não permaneceu assim:
“Com o tempo, tornou-se pessoal. Comecei a perder amigos em combate aqui na Ucrânia. Também vi como os russos acreditam que podem fazer o que querem — estuprar pessoas, atacar civis, cometer atrocidades, agir com total desrespeito pela vida humana, como se fossem bárbaros. Esse tipo de selvageria não tem lugar no mundo moderno.”
A geografia de combate de Khan é realmente impressionante. Desde janeiro de 2023, ele serviu em várias das zonas de batalha mais intensas da guerra russo-ucraniana:
“Minha primeira missão foi na região de Kharkiv. Mais tarde, passei pelos combates em Bakhmut e participei das batalhas por Klishchiivka. Também estive envolvido na contraofensiva na região de Zaporizhia. Agora, estou de volta à região de Kharkiv.”
O combatente francês é proficiente com uma ampla gama de armas. Ele domina tanto os fuzis da era soviética, como o AK-74, quanto as plataformas da OTAN, como o M4. Na Ucrânia, porém, seu fuzil preferido é o CZ Bren 2:
“É um fuzil tcheco com cano curto, ideal para o nosso terreno na região de Kharkiv. Há muitas áreas florestais e linhas de árvores aqui, então um rifle compacto funciona melhor para nossas tarefas. O cano mais curto facilita o movimento e mantém você mais silencioso. Com um rifle de cano longo em uma floresta densa, você fica constantemente prendendo nos galhos e revelando sua posição com ruídos desnecessários.”
As armas pequenas estão longe de ser as únicas armas que Khan sabe usar:
“Quando fui destacado para Bakhmut, minha função era fornecer apoio de fogo próximo usando o lançador automático de granadas Mk 19. Estávamos posicionados muito perto das linhas russas e os combates eram extremamente agressivos. Os russos avançavam sobre nossas posições ao mesmo tempo em que grupos de assalto ucranianos invadiam as deles. Todos os dias, utilizávamos o Mk 19 e gastávamos grandes quantidades de munição — às vezes, até seis caixas em apenas doze horas.”
Os combates na região de Zaporizhia também deixaram uma marca profunda no guerreiro. Ele descreve-os como alguns dos combates mais difíceis e agressivos que viveu:
“Era aquele tipo de guerra em que cinquenta homens eram enviados para tomar uma linha de árvores, enquanto o inimigo fazia o mesmo do outro lado. A artilharia era constante, chovendo do céu, e os combates muitas vezes reduziam-se a combates corpo a corpo. Tivemos sorte de, naquela época, não haver tantos drones, nem tantos FPVs. Enfrentamos tropas inimigas bem treinadas e mal treinadas. Mas os soldados das Forças Armadas ucranianas eram muito, muito bons.”
Para o francês, comandar uma unidade internacional apenas reforça a importância vital da cooperação com as forças ucranianas. Comunicação clara, coordenação e apoio mútuo são fundamentais para o sucesso no campo de batalha. No momento da entrevista, sua unidade estava ligada à 92ª Brigada de Assalto Separada:
“É um grande prazer trabalhar com eles. Mesmo quando estamos posicionados no terreno, eles fornecem um forte apoio com artilharia e drones. Eles nos dão o que precisamos, e isso nos permite cumprir nossas missões com sucesso.”
Depois de passar anos no calor da guerra russo-ucraniana, Khan está convencido de que a vitória da Ucrânia depende de ter mais pessoas dispostas a pegar em armas. No entanto, ele adverte que o voluntariado não é um gesto simbólico — é um compromisso sério com consequências reais:
“Você tem que ter certeza absoluta de que quer vir e lutar, porque isso não é fácil. Essa decisão não afeta apenas você. Ela pode colocar seus amigos e companheiros em situações perigosas. É por isso que você precisa chegar com intenções honestas — honesto consigo mesmo, com sua unidade e com sua família.”
Texto: Dmytro Tolkachov
Foto, vídeo, edição: Volodymyr Patola