Scorpion 3rd ILDU

Scorpion: Ferido em combate, mas com o espírito intacto

Scorpion é um soldado colombiano que serve na 3.ª Legião Internacional para a Defesa da Ucrânia. Atualmente, está envolvido em intensas operações de combate na região de Kharkiv, uma das linhas da frente mais críticas na resistência em curso da Ucrânia contra a agressão russa.

 

 

Scorpion é uma lenda dentro da 3ª Legião. Como um dos membros fundadores do batalhão, ele desempenhou um papel fundamental na formação de sua identidade e espírito. Desde o início da invasão em grande escala da Rússia em 2022, o legionário permaneceu inabalável ao lado de seus irmãos de armas.

 

 

Apesar de sofrer vários ferimentos e suportar as exigências implacáveis do combate, Scorpion continua a retornar ao campo de batalha repetidas vezes. Para ele, cada cicatriz não é um sinal de dor, mas uma lembrança do seu propósito e um símbolo de resiliência: «Fui ferido em combate quatro vezes, mas ainda estou aqui porque acredito que o que a Rússia está a fazer a este país e ao seu povo é profundamente injusto. Quero ajudar, dar tudo o que tenho: o meu treino, a minha experiência e a minha força, para apoiar os meus irmãos de armas e ficar até ao fim.

 

 

O meu objetivo é ver a Ucrânia livre e verdadeiramente independente.»

 

 

O colombiano sofreu o seu ferimento mais recente durante uma batalha feroz contra um grupo de doze soldados russos que atacaram com força esmagadora, usando drones e artilharia para pressionar a sua vantagem. O combate foi caótico e implacável — uma ilustração brutal de como o campo de batalha pode mudar rapidamente:

 

 

«A nossa última missão foi em Kupiansk. Eu, o comandante do grupo, e mais três soldados — todos experientes e incrivelmente corajosos. Mantivemos a nossa posição enquanto pudemos, mas estávamos em grande desvantagem numérica. O apoio que recebemos ajudou, mas não foi suficiente. No final, não tivemos outra escolha a não ser recuar.

 

 

Durante a retirada, dois dos meus companheiros e eu ficámos feridos. Apesar dos ferimentos, ficámos juntos e apoiámo-nos uns aos outros. Lado a lado, conseguimos escapar das granadas lançadas por drones e do fogo de artilharia.

 

 

Foi preciso tudo o que tínhamos — toda a nossa coragem e experiência. Mas, graças a Deus, conseguimos sair vivos. Ainda estamos de pé — e assim que nos recuperarmos, voltaremos à luta.»

 

 

Hoje, a posição da qual Scorpion e o seu grupo foram forçados a recuar já foi retomada pelos nossos soldados. O inimigo foi expulso. Este é mais um lembrete da tensão e intensidade da guerra ao longo desta linha. Aqui, passo a passo, a luta por cada metro de terra ucraniana continua.

 

 

Na altura da entrevista, o legionário ferido estava a receber tratamento num hospital ucraniano. Apesar da carga de trabalho esmagadora, dos recursos limitados e da ameaça constante de ataques com mísseis, os médicos e enfermeiros permanecem calmos, concentrados e inabaláveis no seu compromisso. Numa guerra em que a sobrevivência depende muitas vezes de minutos, a dedicação e a competência dos médicos ucranianos fazem toda a diferença:

 

 

«Fui tratado com muito cuidado. Tenho o maior respeito pelos médicos, enfermeiros e instituições médicas daqui. Desde o momento em que fui ferido no campo, eles cuidaram de mim em todos os momentos até eu recuperar. Graças a Deus que a Ucrânia tem profissionais médicos tão dedicados e serviços hospitalares tão bons.»

 

 

Scorpion lutou em guerras em vários continentes, servindo em várias unidades ao lado de soldados de diversas origens. Com experiência em combate em locais como a Colômbia e o Afeganistão, o legionário agora é capaz de refletir sobre as diferenças gritantes entre esses conflitos e a guerra russo-ucraniana:

 

 

“De todas as guerras em que lutei, o aspecto mais desafiador aqui é a artilharia. O volume é impressionante. No Afeganistão, quase não encontrámos nada parecido — era mais uma guerra de túneis e combate de guerrilha.

 

 

E depois há a tecnologia. Os drones estão por todo o lado. Não enviam apenas um; às vezes são cinco, sete, até dez a atacar ao mesmo tempo. É intenso e torna cada momento na linha da frente completamente imprevisível.

 

 

Mas graças a Deus pelo meu grupo Delta — somos uma equipa sólida. Não importa o que aconteça, sempre nos protegemos uns aos outros.”

 

 

Desde o início da guerra em grande escala, Scorpion participou de inúmeras missões, cada uma com seus próprios riscos e desafios. No entanto, em meio a todas as batalhas e operações, algumas deixaram uma marca indelével em sua memória — missões tão intensas e cruciais que se gravaram mais profundamente do que todas as outras:

 

 

«Duas missões destacam-se na minha memória — uma em Bakhmut e outra em Klishchiivka — onde acreditei sinceramente que não sairia vivo. Enfrentámos artilharia pesada implacável e ondas de drones de ataque, cada momento mais intenso do que o anterior. Apesar das probabilidades esmagadoras, mantivemos a nossa posição, vencemos a batalha e sobrevivemos.»

 

 

Como parte de seu histórico de combate, Scorpion contribuiu para a libertação da região de Kharkiv durante a contraofensiva ucraniana em 2022. Em apenas duas semanas, ele e seus irmãos de armas repeliram as forças inimigas, recuperando mais da metade do território.

 

 

Essa operação rápida marcou um ponto de virada na guerra, demonstrando a determinação de ferro das forças ucranianas. Para o combatente colombiano, a experiência foi exaustiva e profundamente gratificante:

 

 

“Na altura, foi difícil — os russos estavam quase dentro de Kharkiv. Mas quando lançámos a contraofensiva, repelimo-los para três a quatro horas de distância, perto da fronteira regional, perto de Kupiansk. Ver aquela terra libertada foi uma honra — um momento de orgulho que nunca esqueceremos.”

 

 

Durante os intensos combates e os avanços subsequentes, Scorpion também testemunhou em primeira mão as consequências devastadoras deixadas pelo inimigo em retirada. Ele viu aldeias e cidades marcadas pela destruição — casas reduzidas a escombros, infraestruturas arruinadas e vidas alteradas para sempre.

 

 

No entanto, apesar da destruição, ele também viu a vontade inabalável do povo ucraniano de reconstruir e recuperar a sua terra. A sua experiência no terreno aprofundou o seu compromisso com a luta e a sua esperança por uma Ucrânia livre e pacífica:

 

 

“Estive em várias regiões onde os russos ocuparam e depois se retiraram. Fiz amigos em muitos desses lugares — amigos ucranianos que me receberam calorosamente. Eles trataram-me com gentileza e tive a sorte de construir amizades significativas e duradouras com eles.

 

 

Quanto ao que os russos deixam para trás, não é nada além de destruição. É tudo o que eles sabem fazer. Por onde passam, deixam ruínas em seu rastro. Honestamente, não há palavras para descrever. Não é preciso dizer mais nada, porque a devastação fala por si.»

 

 

Onde quer que vá, Scorpion traz consigo uma vasta experiência na operação de uma grande variedade de armas e equipamento militar — experiência adquirida não só nos campos de batalha da Ucrânia, mas também em conflitos noutros países. Os seus conhecimentos abrangem tudo, desde espingardas e metralhadoras de uso comum até sistemas antitanque avançados e lança-foguetes:

 

 

“Na Colômbia, utilizei uma variedade de armas, incluindo AK-47, Galil, M60, MP5, MP4, pistolas e metralhadoras padrão. Enquanto estive no Afeganistão, trabalhei com RPG, Galil ZAR e MP4. Aqui na Ucrânia, utilizei MP4, Groza e Bren 60, entre outras. Também tenho formação em sistemas antitanque, como o AT-4, AT-3 e ENLOC. Além da minha experiência com armas, posso conduzir praticamente qualquer tipo de veículo — até camiões.»

 

 

Em reconhecimento à sua bravura e sacrifício, o legionário colombiano foi condecorado com inúmeras medalhas. Notavelmente, recebeu a medalha «Pelo Sacrifício de Sangue nas Batalhas pela Liberdade da Ucrânia», que homenageia aqueles que foram feridos enquanto defendiam a nação. Também foi condecorado com as medalhas «Cruz de Aço» e «Cruz de Ouro», atribuídas por atos de bravura no campo de batalha e contribuições significativas para a defesa da Ucrânia.

 

 

Mas não é apenas o reconhecimento que o motiva. Para Scorpion, a guerra tornou-se profundamente pessoal. A sua parceira, uma mulher ucraniana, tornou-se uma profunda fonte de força e motivação. Ele já não luta apenas por uma causa — luta por alguém que ama, alguém que está determinado a proteger: «Não tenho ninguém na Colômbia — parti sem deixar laços. Mas aqui na Ucrânia, encontrei alguém. Nem sempre é fácil, especialmente com a barreira da língua, mas estamos a aprender, a crescer juntos.

 

 

Ela compreende os riscos que corro. Aqui, as hipóteses são 50/50 — ou o hospital ou o cemitério. É difícil, sem dúvida. Mas ela compreende. Estamos a lutar pelo país dela, e isso faz com que todos os sacrifícios valham a pena.»

 

 

Apesar da presença constante da guerra, Scorpion continua a acreditar no seu futuro. Nos raros momentos de silêncio, ele permite-se imaginar uma vida além da linha de frente — uma vida após a vitória:

 

 

“Quero obter a cidadania ucraniana e fazer deste país o meu lar. Adoro a agricultura, por isso espero cultivar a terra e começar o meu próprio negócio. Também sonho em constituir família aqui. A Ucrânia é um lugar incrível, cheio de resiliência e espírito. Depois da guerra, teria orgulho em ajudar a reconstruir esta nação e contribuir para o seu futuro.”

 

 

Para a lenda da 3.ª Legião, a vitória não é apenas um sonho distante — é uma força motriz que o mantém a lutar por uma terra que passou a ocupar um lugar especial no seu coração. A Ucrânia deixou uma marca duradoura no colombiano, tocando-o de inúmeras maneiras:

 

 

«A cultura aqui é verdadeiramente excecional. Sinceramente, é uma das culturas mais bonitas que já conheci. A comida é excelente — fresca, saudável e muito nutritiva. Acredito que os ucranianos têm uma forte tradição de comer bem e cuidar de si mesmos.

 

 

Apesar da guerra em curso, este país parece muito seguro, especialmente em comparação com lugares que conheci na América Latina, onde a insegurança é muito mais comum. Além disso, o calor e a gentileza das pessoas se destacam. Os ucranianos são incrivelmente generosos e maravilhosos, o que torna a vida aqui ainda mais significativa.”

 

 

As feridas do Scorpion lhe renderam o respeito e o reconhecimento para ser considerado “um dos nossos” pelos ucranianos. Mas, para ele, o verdadeiro sentimento de pertencimento vai além do campo de batalha. Para se integrar totalmente à comunidade que agora chama de lar, ele está empenhado em aprender ucraniano — não apenas como uma necessidade prática, mas como uma forma de criar laços mais profundos com as pessoas ao seu redor:

 

 

“A barreira do idioma é real, mas estou fazendo progressos. Aprendi palavras diferentes para animais e expressões importantes — especialmente saudações. Por exemplo, sei que silêncio é ‘tykho’, cabra é ‘koza’, vaca é ‘korova’ e cavalo é ‘kin’. Quando dizemos ‘recarregar’, a palavra é ‘perezariadyty’. ‘Nebezpeka’ significa ‘perigo’. Quando há russos na área, chamamo-los de «moscovitas». Conseguimos até distinguir números como «odyn» (um), «try» (três) e «chotyry» (quatro) para identificar as forças inimigas. Há muitas, muitas palavras — não me lembro de todas agora, mas consigo entender bastante quando as pessoas falam.»

 

 

Para o Scorpion, a guerra não se resume a derrotar o inimigo; trata-se de preservar a força e o espírito daqueles que lutam ao seu lado — para que possa viver para lutar outro dia. Se está disposto a lutar pela Ucrânia, deve compreender que esta não é uma guerra pela glória ou pela aventura — é uma experiência brutal e transformadora que exige coragem, resiliência e um compromisso profundo:

 

 

«Temos de nos manter concentrados e alertas o tempo todo. Primeiro, proteger a nossa própria vida, depois cuidar dos nossos companheiros. Confiar na nossa equipa — eles protegem-nos. Manter a nossa família em mente e acreditar profundamente na nossa missão. Lembrar que estamos a fazer algo significativo aqui. É isso que nos dá força. Podemos morrer ou podemos sobreviver. E depois da guerra... veremos.»

 

 

Ao contrário de outras guerras em que lutou — onde os motivos políticos eram muitas vezes obscuros e as linhas de lealdade difusas — aqui os riscos são muito claros: uma nação está a defender o seu próprio direito à existência, enquanto outra tenta apagá-la.

 

 

Para Scorpion, essa clareza é poderosa. Ele sabe exatamente porque está aqui. Não é por dinheiro ou glória — é para apoiar um país que demonstrou uma coragem extraordinária diante de uma agressão brutal. Um país que ele agora orgulhosamente chama de lar:

 

 

“Viemos aqui para ajudar a libertar este país e tenho um profundo respeito pelos soldados ucranianos. Eles são verdadeiros guerreiros — lutam com o coração, com tudo o que têm, pela sua pátria. Esse tipo de espírito dá-nos força. Faz-nos sentir orgulhosos de estar ao lado deles e lutar com eles.”

 

 

Apesar das dificuldades, Scorpion continua em frente — motivado por um profundo senso de dever e lealdade. As feridas não quebraram o seu espírito. Cada vez que se recupera, ele escolhe voltar para a linha de frente e se juntar aos seus irmãos de armas, sabendo que a sua presença pode significar a diferença entre a vida e a morte. Para ele, estar ao lado dos seus companheiros soldados não é apenas uma responsabilidade — é uma questão de honra:

 

 

“Sou grato a Sviatopolk, um oficial da 3ª Legião, por criar este grupo. Todos os rapazes passaram pela sua seleção e entrevistas antes de se tornarem parte da nossa equipa. Temos alguns dos melhores soldados do mundo — pessoas que realmente amam o uniforme e a causa — e daremos tudo o que temos pela liberdade da Ucrânia. Encorajo qualquer pessoa que queira se juntar a nós. A Ucrânia precisa da sua ajuda.”

 

 

 

Texto: Dmytro Tolkachov

 

Foto: Volodymyr Patola