“Eu queria lutar” — Kiwi, um estudante da Nova Zelândia que se juntou ao Exército Ucraniano
Ele cresceu em Auckland — uma cidade que muitos chamariam de paraíso. Conhecida como a “Cidade das Velas”, é um lugar onde o oceano nunca está longe, onde colinas vulcânicas verdes encontram praias de areia branca, e onde a vida segue em um ritmo diferente — mais calmo, mais seguro. É o tipo de lugar ao qual as pessoas se apegam. Mas Kiwi o deixou para trás. Porque assistir a uma guerra à distância — sabendo que pessoas inocentes estavam sofrendo — não era algo com que ele pudesse conviver.
Kiwi não era soldado. Era estudante, cursando engenharia mecânica. Não tinha experiência militar, nenhum treinamento — nada que o preparasse para o campo de batalha. Mas quando a Rússia invadiu a Ucrânia, algo mudou. Ele entendeu que não podia ficar de fora. Então deixou os estudos e veio para a Ucrânia:
“Eu queria lutar. Não gostava do que a Rússia estava fazendo — bombardeando civis, destruindo casas. Eu não podia concordar com nada disso. Então larguei a universidade, vim para cá e comecei a procurar uma brigada. Conheci um novo amigo, e ele disse: ‘Vem comigo, vamos para a 47ª.’ E aqui estou.”
Para Kiwi, a Ucrânia não era apenas uma manchete — tinha rostos, vozes e nomes. Enquanto aprendia ucraniano online, ele se conectou com pessoas que logo se tornaram mais do que apenas parceiros de idioma. Elas compartilharam sua realidade — ataques aéreos, medo, incerteza. Deixou de ser algo distante. Tornou-se pessoal:
“Eu estava tentando aprender ucraniano, usando o HelloTalk. Foi assim que conheci amigos online. Eles me contavam o que estava acontecendo — os bombardeios e tudo mais. Também me mostravam fotos. Ver aquilo me fez querer vir para cá ainda mais rápido.”
Kiwi chegou sem experiência militar, mas não despreparado. Ele focou na condição física antes de vir — e, já na 47ª Brigada Mecanizada “Magura”, passou por um treinamento intensivo — projetado para transformar rapidamente civis em soldados prontos para o combate:
“Em termos de treino, eu só ia à academia — basicamente isso, para ficar em forma. Depois cheguei a esta unidade, e eles nos treinaram por um mês direto. Tiro e muita caminhada — muita caminhada mesmo.”
Com dez missões concluídas na 47ª Brigada, Kiwi está se transformando gradualmente de novato em um soldado moldado pela experiência. O que mais define essa evolução não é apenas o combate, mas a tensão constante de ser caçado do céu.
Como que para sublinhar a presença de drones no céu ucraniano, nossa entrevista foi interrompida pelo zumbido inconfundível de um deles nas proximidades. E cada encontro desses só reforça a importância da preparação:
“São muitos — você tem que se esconder rapidamente. No treinamento, dizem: fique imóvel, esconda-se atrás de uma árvore. Então, quando você ouve um drone, o primeiro pensamento é: ‘Que diabos eu faço agora?’ Você pode ficar com medo por um momento, mas depois muda — e todo aquele treinamento entra em ação.”
Por mais experiência que adquira, há coisas que nunca ficam mais fáceis. Faz parte da realidade que todo soldado enfrenta — e um dos fardos mais pesados de carregar:
“Tem a lama e a neve — você não consegue correr direito. Mas o mais difícil é ver seus amigos feridos… ver corpos, e perceber: aquilo poderia ser eu.”
Na guerra, as pessoas se agarram ao que as ajuda a suportar. Para Kiwi, mesmo no meio do caos, há momentos de humor sombrio — instantes que não apagam o perigo, mas o tornam suportável:
“Uma vez tivemos que limpar uma posição — havia dois russos lá dentro que precisávamos eliminar. Meu amigo era o homem de ponta, eu estava logo atrás com uma metralhadora. Então ele foi atingido. Caiu, mas continuou atirando, gritando: ‘Estou ferido!’
Avancei até uma pequena vala e comecei a atirar — e então fiquei sem munição. Peguei a caixa de munição e joguei na direção deles, gritando ‘Idi nahui’ [‘Vai se foder’ em russo]. E eles começaram a atirar de volta.
Essa foi provavelmente a parte mais engraçada do meu dia. Esse momento sempre fica comigo.”
Mesmo em meio à guerra, Kiwi encontrou algo inesperado — uma razão para pensar no futuro. Em um país que ele veio defender, conheceu alguém que fez tudo parecer mais do que apenas uma missão. Algo que poderia se tornar um lar. Mas, enquanto a guerra não termina, seu lugar continua sendo na linha de frente:
“Tem uma garota em Dnipro — uma garota muito especial. Quero ir lá tomar um sorvete com ela. E depois disso, continuar lutando. Eu amo lutar, e amo este país.”
E para aqueles que pensam em se voluntariar e se juntar às fileiras do exército ucraniano, Kiwi mantém seu conselho simples e direto:
“Faça isso. Você vai ter o melhor equipamento, o melhor treinamento, e vai encontrar irmãos para a vida toda aqui. Se você realmente quer lutar, venha para a 47ª. Eu recomendo. Você vai aprender muito — o treinamento é muito forte. Se você cometer erros, não vão gritar com você. Eles vão te ensinar a fazer do jeito certo.”
Saiba mais sobre a 47ª Brigada Mecanizada Separada “Magura” e junte-se a ela no site oficial: https://47.army/
Texto: Dmytro Tolkachov
Vídeo, fotos: Volodymyr Patola, Dmytro Tolkachov
Edição: Oleksandr Bekker