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Sem magia, apenas um fuzil: como o “Harry Potter” do Brasil se tornou um soldado da Ucrânia

“Harry Potter” é um nome de guerra que, em quase qualquer outro contexto, soaria como uma piada. Mas aqui, na linha de frente da guerra da Rússia contra a Ucrânia, ele assume um significado quase simbólico. Afinal, este brasileiro de 23 anos juntou-se à luta contra a agressão russa, liderada por uma figura cuja aparência muitos não conseguem deixar de comparar ao principal vilão do universo de J.K. Rowling. A diferença é que este vilão não existe nas páginas de um livro, mas na vida real — e as consequências de suas ações também são muito reais.

O combatente recebeu seu nome de guerra por puro acaso. Em um centro de recrutamento, um compatriota brasileiro olhou para ele e brincou: “Você parece o Harry Potter”. A comparação pegou e acabou se tornando sua nova identidade.

 

 

No entanto, este jovem não é um bruxo nem um herói de fantasia. Ele vem do sul do Brasil, da cidade de Curitiba. Apesar da distância geográfica, a metrópole tem uma ligação especial com a Ucrânia — abriga uma das maiores diásporas ucranianas da América do Sul.

 

 

O voluntário brasileiro se interessava pela vida militar desde a infância. Gostava de filmes de guerra e sonhava em servir nas forças armadas. Depois de concluir os estudos, ingressou no Exército Brasileiro, mas mais tarde começou a procurar um novo desafio. Eventualmente, essa busca o levou à Ucrânia:

 

 

“Um dia eu pensei: Ucrânia. Eu posso ir para lá. Posso lutar. Então tomei a decisão e vim para ajudar os ucranianos em sua luta.”

 

 

Ao contrário de seu homônimo literário, este Harry Potter não foi parar em um mundo de magia. Aqui não existem varinhas, feitiços ou resgates milagrosos de última hora. Existe apenas uma guerra real, onde a sobrevivência depende da resistência, da disciplina e da disposição de arriscar a própria vida pelos outros.

 

 

No momento da entrevista, Harry Potter havia participado de apenas uma missão de combate como integrante do 253º Regimento de Assalto Independente. Mas essa missão durou nada menos que 36 dias — tempo suficiente para abandonar para sempre qualquer visão romântica da guerra:

 

 

“Foi muito difícil. Mas nada na guerra é fácil.

 

 

Fui colocado no comando de um grupo recém-formado. Havia outros dois rapazes novos comigo. Desde o começo eu sabia que seria difícil, porque nenhum de nós tinha experiência de combate. Mas tínhamos que fazer tudo o que estivesse ao nosso alcance.

 

 

No segundo dia fomos atacados. Um dos rapazes ficou ferido e tivemos que esperar pela evacuação dele. Consegui estancar a hemorragia em sua perna, então ele não perdeu o membro. Depois disso, mantivemos a posição por mais uma semana.

 

 

Em seguida recuamos. Mas o inimigo conseguiu nos atacar novamente pela retaguarda. Projéteis de artilharia e drones começaram a cair sobre nós. Tivemos que repelir o ataque mais uma vez. Mas desta vez tudo correu bem. Nenhum dos nossos homens ficou ferido.”

 

 

Ao final dessa história, Harry Potter mostrou um distintivo capturado com a inscrição “URSS” e declarou de forma simples:

 

 

“Os únicos que morreram foram os russos.”

 

 

Durante os meses que passou na Ucrânia, o voluntário brasileiro conheceu muito mais do que apenas a guerra. Servir nas Forças Armadas da Ucrânia permitiu que ele conhecesse o país pelo qual luta, seu povo e seu modo de vida:

 

 

“Quando cheguei aqui, o outono já estava quase terminando. A neve é bonita, mas eu não gostei muito dela. Agora, no verão, tudo é muito mais bonito. Eu gosto muito das paisagens.”

 

 

A culinária ucraniana também foi uma surpresa. Ela se mostrou muito diferente de tudo aquilo a que ele estava acostumado no Brasil:

 

 

“Vocês costumam comer sopa no almoço. Para nós isso é muito estranho. Mas as pessoas daqui gostam muito.”

 

 

O que mais impressionou Harry Potter, porém, foram os próprios ucranianos. Mais especificamente, o contraste marcante entre sua natureza calma e amigável e as dificuldades que foram obrigados a suportar:

 

 

“As pessoas daqui são muito boas. Você anda pela cidade e pensa: por que esse povo precisa sofrer tanto? As pessoas vivem bem. São pessoas tranquilas. E, mesmo assim, têm que passar por tudo isso. É muito triste.”

 

 

Embora goste da Ucrânia, o brasileiro planeja voltar para casa quando a guerra terminar, para junto de sua família e da vida que deixou para trás. Embora tenha adquirido uma experiência valiosa aqui, ele vê seu futuro no Brasil:

 

 

“A Ucrânia é um país muito bom para viver. Mas depois eu quero voltar para a minha família. Para a casa onde passei toda a minha vida.

 

 

E, claro, quero usar a experiência militar que adquiri aqui para conseguir um bom emprego. Viver uma vida tranquila, com uma renda digna, formar uma família e seguir meu próprio caminho.”

 

 

Para aqueles que consideram juntar-se às Forças Armadas da Ucrânia na luta contra a invasão russa, o combatente brasileiro conhecido como “Harry Potter” tem um conselho baseado diretamente em sua experiência na guerra:

 

 

“Se você está vindo para cá por dinheiro, não venha. Porque não é apenas a sua vida que está em risco, mas também a vida dos seus irmãos de armas. Dinheiro não é nada comparado a isso.

 

 

Mas, se você quer adquirir experiência e realmente ajudar essas pessoas, então venha. Faça o seu trabalho da melhor forma possível. Que Deus os proteja.”

 

 

 

Texto: Dmytro Tolkachov


Vídeo e fotos: Dmytro Tolkachov, Oleksandr Bekker


Edição: Oleksandr Bekker